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quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Foi Deus quem afundou o Titanic, com ele não se brinca!





1. Recentemente, vi em meu mural do Facebook a imagem acima, postada, logicamente, por algum evangélico. Ela está fundamentada na suposta afirmação histórica de que o dono, ou construtor do Titanic, havia dito, quando uma repórter lhe interrogou acerca da segurança do navio, antes do início de sua única e primeira viagem, a frase seguinte: "filha, nem Deus poderia afundar esse navio". 

2. Pois bem, a ideia que se sustenta popularmente é a seguinte: Deus não gostou da suposta afirmação arrogante do construtor, e, a fim de provar sua soberania, e que com Ele não se brinca, justificando a falta de senso de humor,  pôs um iceberg no Oceano Atlântico, às 23:40 horas do dia 14 de Abril, bem à frente do navio, com um único objetivo em mente, vê-lo bater, cortando parte do casco a estibordo, para que a água extremamente gelada daquela noite de baixa temperatura pudesse invadi-lo, a fim de afundá-lo e consequentemente matar 1523 pessoas, entre recém-nascidos, crianças, jovens, adultos, idosos, das 2240 que estavam a bordo. 

3. E foi bem isso que aconteceu, como pensa o evangélico que, na verdade, não pensa. 

4. Agora, vamos imaginar, segundo essa teoria vingativa, a reação de Deus nas aproximadamente três horas e meia de puro desespero e terror que sofreram as pessoas presentes naquele evento catastrófico. 

5. Sentado em seu alto trono celestial, às 23:40 horas, como anteriormente dito, deu o primeiro sorriso, com a afirmação do construtor do navio em mente, enquanto o casco era rasgado pelo choque com o iceberg. Às 00:05 horas, do dia 15, quando a maioria dos passageiros foi avisada do acontecido, pelo capitão Edward Smith, o soberano pensou consigo mesmo: "podem levantá-los, não adiantará nada, comigo não se brinca. 1523 vão morrer, independentemente daquilo que vocês façam". 

6. Os passageiros da terceira classe, como estavam, no momento do choque, reunidos no grande salão da terceira classe junto à popa (parte de trás do navio), foram os primeiros a se desesperarem e serem atingidos pelas águas. Alguns se aventuraram, correndo por entre os labirínticos corredores inferiores, mas sem resultados positivos. Muitos deles, antes mesmo dos primeiros botes salva-vidas, às 00:31 horas, serem colocados no mar, já tinham sido afogados (lembrem-se, incluindo milhares de crianças, idosos, deficientes, e outros, principalmente, em se tratando da terceira classe). 

7. Às 01:25 horas, a inclinação do convés ficou maior, tornando-se necessário que os botes fossem preenchidos com mais pessoas. Mesmo assim- lembram-se do filme, de 1997?- muitos não foram enchidos com a capacidade real que possuíam, mas, por falta de humanidade, ou por questão apenas de desespero, saíam com o limite abaixo do esperado, impossibilitando de salvar muitas outras pessoas. Desse modo, às 02:05 horas, o último bote foi arriado, ocupando 44 lugares, não dando nenhuma chance de salvamento para as outras milhares que restaram. Entre às 02: 15 e 02: 20 horas, a pressão da popa aumentou cerca de 10%, não suportando o peso da água, causando o rompimento. Ela despencou em direção à água, e esmagou milhares que estavam por baixo dela, como formiguinhas (acho que Yaveh deu um pulo e gritou: "isso! É assim mesmo que eu quero que aconteça".) 

8. Às 02:18 horas, a popa subiu e ficou parada por pouco tempo, depois de alguns segundos, começou a descer até o fundo do oceano, arrastando com seu peso muitos indivíduos que, nesse momento, tentavam nadar em busca de sobrevivência. 02:20, o navio desceu a pique pelas profundezas. 

9. Pronto, resolvido, Yaveh havia se vingado, vencido mais uma. Ainda lá do céu, deu uma risada sarcástica, estufou o peito, e gritou, "comigo não se brinca!". Os anjos, os anciões, os querubins, os serafins, e outros seres, baixaram suas cabeças, e disseram: "verdade, justo e poderoso é Yaveh!". 

10. Voltando ao Atlântico, ainda havia restado algumas pessoas, as que não tinham sido esmagadas pela queda da popa, as que ainda não tinham se afogado, e as que não tinham sido arrastadas pelo peso da descida do navio. Porém, Yaveh providenciou um fim especial para esses, os tubarões, e a hipotermia. Ou seja, alguns foram despedaçados, viraram um lanche especial de madrugada dos tubarões, e outros, tornaram-se picolés, iguais o Jack do filme. 

11. Vingança concluída, a suposta frase do construtor havia caído por terra, e Deus havia provado duas coisas: que existe, e que com ele não se brinca. 

12. Acho que seria melhor para a humanidade se o soberano resolvesse provar sua existência da seguinte forma: eliminando a violência, a fome, a guerra, a corrupção, a dor, resolvendo os problemas sociais do mundo. Há poder para afundar o Titanic, não há? Então, há poder para tais resoluções. Chama-me atenção, também, a falta de consideração à vida humana pelos evangélicos que se deliciam diante de afirmações como a da figura supracitada, popularmente aceita, sem reflexão e crítica. E tudo isso, a fim de defenderem a imagem de sua divindade, a mesma que no domingo à noite salva, e esboça amor, mas em 14 de abril de 1912, matou e exterminou milhares por vingança. 

13. Alguma coisa está errada nessa imagem. 

André Francisco


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