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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Narrativas da criação do homem em Gênesis

 





1. Há duas versões na narrativa da criação do homem no livro de Gênesis (b'reishit) da Bíblia Hebraica.

2. A primeira chama Deus de elohim. Estende-se de Gn 1.1 a 2.3. Na segunda Deus é Yahweh (yhwh), identifica o homem como Adão (adama) e a mulher Eva (isha). Essa classificação não aparece na narrativa eloísta pois apresenta a formação do homem, "à imagem e semelhança de elohim", junto à mulher Gn 1.26-27 ("macho o fêmea o criou").

3. Essas duplicatas se estendem pelo primeiro livro da Torá em diversos outros textos em praticamente todas as histórias das principais personagens, Noé, Abraão, etc.

4. A maioria das traduções Bíblicas brasileiras traduzem a palavra elohim por Deus e yaveh elohim por Senhor Deus. Uma leitura atenta é suficiente para perceber tais diferenças por todo texto hebraico. 

André Francisco

segunda-feira, 26 de abril de 2021

A Ascensão de Davi: recortes histórico-literários

   


    1. A crítica histórico-literária há muito tem analisado determinados recortes historiográficos, de diversos gêneros: sejam sagas, lendas, anais, escritos, mitos, listas, prosas, poesias, cânticos, sapienciais, entre outros, em todo o texto que compõe a tradição escrita da Bíblia Hebraica. Diante disso, consegue selecionar e classificar diferentes autores no material a que se debruça a fim de retratar sua origem e composição e perceber, consequentemente, utilizando-se de ferramentas disponíveis na ciência exegética como arqueologia, história, antropologia, sociologia linguística e baixa crítica, seu teor e conteúdo.

 2.  Todo esse trabalho busca, principalmente, retratar o Sitz im Leben da produção desses documentos e traçar o panorama mais confiável possível de sua formação no seu próprio conjunto social, destacando, dessa forma, minúcias que passariam despercebidas ao simples leitor que não dispõe dessas informações tampouco prática adequada na observação especializada de textos antigos e suas características. Como resultado dessa correta aplicação do ferramental científico-acadêmico a que faz uso, consegue atingir interpretação e percepção aprimorada daquilo que observa.

 3. Em um exercício dinâmico de observação de hipótese documental tem-se, aqui, um personagem importante do Israel antigo, tanto na sua influência para a tradição religiosa dos Javistas, Eloístas, Sacerdotais e Deuteronomistas, como de Estado de facto. Destaca-se uma perícope importante de análise a partir do uso dessa metodologia: A Ascensão de Davi.

 4. 1 Sm 16.14-23 descreve o que, provavelmente, seria a tradição mais antiga em relação à saga lendária e a queda natural de Saul em substituição ao projeto de Estado de Javé e consolidação da literatura e tradição do aparato teológico “Casa de Davi”, que permaneceu vigorosamente até os tempos da golah pós-exílica de 530 d.C a 330 d.C, perpetuando-se também em tempos helénicos. Nesse primeiro momento, (v. 14) o “espírito de Javé” se retira de Saul e um “espírito mau” de Javé o perturba. Importante salientar que o termo ruah, traduzido como espírito, ainda nesse momento, não se particulariza em relação a sua origem de acordo com textos posteriores em que a influência dualística da teologia Persa moldou sua etimologia para distinguir entre o fator gerador do bom e o mau. No caso supracitado, o mesmo agente indiscriminadamente faz o bem e o mal.

 5. (v.17) Saul pede por um harpista, (v.18) alguém sugere o filho de Jessé, de Belém, o qual é “talentoso, hábil, corajoso, forte, de boa presença e inteligente. E o que é mais importante, Javé é com ele”. Característica que os javistas enfatizaram claramente através da adjetivação a fim de criar uma imagem poderosa e importante para Davi. (v.19) Imediatamente ao chegar, Saul gosta do que vê e se sente conectado a ele, fazendo-o seu “pajem de armas”. Segue a prosa descrevendo que o ruah YHWH era afastado no momento em que a harpa era tocada e o Rei sentia-se aliviado. O versículo 23 encerra a narrativa do primeiro encontro entre Saul e Davi, projetando o belemita diante da corte real de Israel e consequentemente garantindo uma cobertura histórica inicial para sua Ascensão à coroa.

 6.  1 Sm 17, texto amplamente aceito como uma tradição mais recente na formação da história deuteronomista, repleto de conteúdo redacional de inclusão e conexão de fonte P e de base eloísta em sua essência, narra o episódio da Ascensão de Davi localizado entre uma batalha de Israel e a Filisteia no vale de Elá. Em diversas perícopes historiográficas em prosa da Bíblia Hebraica o conjunto de conteúdo inclusivo de personagens heroicos e tradicionalmente analisados a partir dos gêneros saga e lenda são pontuados em situações de guerra e, principalmente os mais antigos, com inimigos conhecidos, Egito. Edom, Moab, Amon, e mais recentemente Filisteus, Assírios e Babilônicos, seguindo o panorama cronológico. Em alguns casos, essas referências se misturam por descuido dos redatores e citações são colocadas distantes da “adjudicação histórica”, como no caso de Gn 26.1, que cita “Abimeleque, rei dos filisteus”, sendo que, os povos do mar tiveram o primeiro contato com as terras nômades em 1200 a.C. Bem diferente do cronograma da lenda de Abraão que encabeça mitos e lendas do começo ou meados do segundo milênio a.C. Como exemplo também se tem Gn 14.14 em que Abrão, na descrição do redator eloísta, persegue os reis confederados até Dã, território este que, na tradição da repartição das tribos, foi distribuído somente na época dos Juízes. O que dificulta a atribuição desses livros, como a maioria da leitura leiga faz, a Moisés.

 7. Retomando a Davi, o evento possui como base duas tradições principais distintas, a eloísta, que define o focum do combate entre filisteus e israelitas, e sacerdotal e toda sua característica bastante repetitiva de delimitar notas explicativas para as prosas, detalhando nomes, locais, datas, quantidades, listas entre outras coisas. Talvez algumas pinceladas javistas em determinados momentos muito específicos (v. 37, 45, 46ª). Em 1 Sm 17.1-11, a fonte P faz uso de uma tradição mais recente da batalha, enfatizando o gigante e seu nome, Golias, a estatura e características de armamento, a fim de retocar toda a história, diferentemente de parte do mesmo capítulo (v. 12- 19), eloísta, em que seu nome é omitido e a afronta se trata apenas de um filisteu guerreiro (v.16, 26, 32, 34, 48, 50, 51, 54ª, 55). O local do agrupamento da tropa é repetido nas duas versões, (v.2, 19). Normalmente textos com características de Livros de Heróis e Listas Reais (em que se descreviam vitórias em batalhas e seus principais guerreiros) são narrados em duplicatas (ver Jz 7; 8- duplicata da saga dos trezentos de Jerubaal- Gideão), como por exemplo em 2 Sm 21.14-20, a mesma batalha de 1 Sm 17 é narrada de forma diferente. El-Hanã, o belemita, mata Golias, o giteu (v. 19), e Jônatas, filho de Simei, mata o gigante de Get, com vinte e quatro dedos. 2 Sm 21.18 é um texto confuso que os redatores não conseguiram conectar exatamente com os documentos que possivelmente tinham em mãos para se basear. Mas é visível a tentativa de conectar essas perícopes avulsas. O v.22 é um exemplo dessa junção ao atribuir a Davi e seus servos o que havia sido detalhado como apenas a seus servos anteriormente.

 8. O v.12 apresenta Davi e sua família de Efraim, ressaltando Judá (judaítas), de forma mais completa que em 1 Sm 16.18. Ainda no v.12 o redator cuida de acrescentar que o belemita já fazia parte da corte de Saul “por tempo parcial”, atentando-se para a descrição de 1 Sm 16.14-23. Porém, subsequentemente, na narrativa, enfatiza o desconhecimento do Rei a respeito de Davi e sua família (v.55-58), diferentemente da já apresentada no capítulo anterior. Em 1 Sm 17, na batalha contra o filisteu, Davi Ascende ao lado do trono de maneira heroica e categórica, desconhecida mas triunfante. Na tradição de 1 Sm 16, como pajem de armas e harpista. Conteúdo dualístico explorado pela História Deuteronomista nos quatro livros dos Reis de Israel (Sm 1 e 2; Re 1 e 2) e em toda confecção posterior da história de sua vida como primeiro monarca do “reino unido”. Guerreiro e cantor. A literatura sapiencial aposta fortemente nessa prosa para garantir a origem de diversos Salmos ao Rei até mesmo os que descrevem momentos próximos ao exílio babilônico e persa, 500 a 400 anos depois de seu reinado 1000- 970 a.C?. Diante do resultado da batalha e o encontro com Saul, Davi permanece na corte e se mantem apegado a Jônatas (18.1-3).

9. Esta análise rápida da Ascensão de Davi destacando as diferenças literárias de acordo com a observação das suas fontes define como metodologia a crítica das formas e tradições que geralmente são vistas em todo conteúdo da Bíblia Hebraica. Indica, resumidamente, o trabalho dos redatores para uniformizar as narrativas de acordo com os documentos que dispunham e suas escolas e teologia hermenêuticas, sem se apegar, como modernamente se faz, a necessariamente retratar um fato ou acontecimento histórico desvencilhado de gêneros textuais comuns à época. A saga lendária, considerando aqui em definição o termo sagen de estudos em literaturas principalmente Escandinavas de meados do milênio passado, é bastante utilizado nessa construção do Sitz in Leben, não diferente das outras mais variadas prosas do mundo antigo que se tem conhecimento para delimitações de paralelos interpretativos seguindo esse viés histórico-social.

 

André Francisco

 

 

 

 

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

O aborto legal e o moralismo religioso

 

 

 

1. É realmente inacreditável a maneira como determinadas pessoas conseguem opinar ou tratar assuntos moral, humana, ética, jurídica, política, socialmente sensíveis, buscando única e exclusivamente viabilizar a defesa de afirmações ideológicas pessoais, baseadas em dogmas e doutrinas religiosas antigas, sem considerar em nenhum momento o fato concreto a que, fatalmente, a vítima- no caso em tela uma menina de 10 anos- submeteu-se de jeito trágico e indefensável.

2. Diversos grupos, violando qualquer básico sentimento de bom senso esperado pelo teórico avanço social e civilizatório que tivemos durante séculos, estão defendendo que o procedimento abortivo não deveria ter sido realizado pois é crime e se opõe a "princípios" cristãos da defesa da vida humana previstos na Bíblia e na cultura sagrada. Diante disso, é importante fazer breve alusão ao quadro a que se encaixa tal coerente e necessário ajuizamento da Justiça Brasileira a qual, prontamente, autorizou a realização do procedimento médico da interrupção da gravidez forçada.

3. O aborto é legal no Brasil desde 1940, sendo esta modalidade tipificada no artigo 128 do Código Penal, parte especial, no Capítulo 1- Crimes contra a vida- excepcionalmente em dois casos: I- se não há outro meio de salvar a vida da gestante; e II- se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido de consentimento da gestante ou, quando incapaz, de seu representante legal. 

4. O inciso II destaca o que a doutrina reiteradas vezes classifica como aborto sentimental ou humanitário, pois sua provocação é permitida desse modo por se tratar de gravidez indesejada decorrente de ato sexual forçado. Vale destacar que com o advento da Lei n. 12.015/2009, que deixou de fazer distinção entre crimes de estupro e atentado violento ao pudor, revogando este último e passando a chamar de estupro todo e qualquer ato sexual cometido com violência ou grave ameaça, deixou de ser necessário discutir a possibilidade de aborto legal quando a gravidez resultar de atentado violento ao pudor, já que este crime não mais existe como infração autônoma.

5.  Outro tipo não previsto no Código Penal (1940) é em caso de anencefalia. O Plenário do STF, em abril de 2012, julgou procedente a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental n. 54, ajuizada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores de Saúde (CNTS), a fim de declarar a constitucionalidade da interrupção da gravidez nos casos de gestação de feto anencéfalo. Tal conduta, portanto, foi considerada atípica e independe de autorização judicial, bastando a concordância da gestante. 

6. As modalidades da forma criminosa estão previstas do artigo 124 a 127 do mesmo Código anteriormente citado, que variam com pena de detenção e reclusão de um ano a dez anos a depender do tipo, podendo aumentar hajam vista as causas de aumento da pena previstas no artigo 127.

7. Mesmo diante dessa legalidade existente há quase um século em nosso ordenamento jurídico pátrio, o assunto sempre retoma à proporções que excedem unicamente o aspecto do direito e encabeça a discussão envolvendo a defesa da vida a fim de cumprir mandamentos religiosos. 

8. O que mais me chama a atenção- e nesse texto não evito a pessoalidade dando ênfase à partículas apassivadoras, no entanto, redobro os esforços para conjugar o verbo na primeira pessoa- é o fato de em frente a esses bens jurídicos tutelados,- listo a  incolumidade física da criança, sua honra, saúde mental, emocional, identidade, o prejuízo de sua infância furtada, a desfiguração psicológica altamente precoce, e a vida do feto- a todo tempo, aquelas são preteridas em relação a essa.

9. Em nenhum momento defendo que a vida humana não tem valor. Não precisamos ser super inteligentes para notarmos que precisamos avançar cada vez mais no esforço e trabalho a fim de criarmos mecanismos de proteção e perpetuação de nossa espécie dia a dia mais eficientes mesmo considerando todas as diversidades existentes, sejam ideológicas, de crença, cor, credo, língua, etnia, etc. E, assim, expandirmos e otimizarmos métodos que valorizem a dignidade humana e que possibilitem o amplo acesso à condições melhores de sobrevivência, que são a causa do efeito da manutenção da vida. 

10. Porém, no caso aqui particularíssimo, estamos falando de uma criança de 10 anos. Sim, 10 anos! 

11. Defender a vida do feto sem se considerar o que a própria previsão legal taxativamente garante- sua remoção- fazendo descaso e vistas grossas para a vítima do abuso sexual e as consequências inevitáveis que a sua concepção trariam irremediavelmente, simplesmente porque é necessário obrigatoriamente se apegar à informações sobre o que Deus iria querer como dono da vida, sendo o único detentor do direito de tirá-la ou dá-la, é no mínimo demonstrar mal entendimento completo dos valores centrais da capacidade humana de criar conceitos morais e éticos que excedam os já em muito superados do passado. 

12. E esses mesmos que esbravejam baseados em achismos sagrados não se propõem a, por exemplo, centralizarem esforços para que políticas públicas de defesa da criança e do adolescente sejam mais eficientes. Protestar em frente a um hospital não se enquadra nesse tipo de modalidade a qual me refiro. Não tenho dúvida que parte daqueles histéricos defensores dos ditos "valores morais" sequer permutam o lazer e gastos diários consigo e familiares próximos a favor de crianças carentes, órfãos, abandonados, idosos, viúvas, doentes, carentes, necessitados e tantos outros que precisam diuturnamente de amparo. 

13. Ao mesmo tempo que afirmam que a menina e seus responsáveis legais são "assassinos"- sim, pasmem-se!, há quem afirme, inclusive Silas Malafaia indiretamente; aquele cidadão agressivo e gritador que se diz pastor, que pede para seus fiéis separarem um dos aluguéis e depositarem em sua conta corrente em "prol da obra de Deus"-, sequer se propuseram a oferecer amparo, carinho, amor, recursos, cuidados, força, dinheiro, ajuda de qualquer modo para quem realmente está sofrendo todo o prejuízo dessa exposição. Quem fez foi o Felipe Neto- sim, ele mesmo; aquele a qual, conforme os conservadores, é um esquerdista maligno- propondo custear a educação completa da garota até a formação no curso superior e outros gastos.

14. Isso seria hipocrisia? Seria uma maneira de publicamente deixar claro que, mesmo se intitulando cristãos, indivíduos assim não entenderam absolutamente o mínimo da mensagem de seu próprio mestre?

- Seriam as palavras de Jesus, de que "os pobres sempre estariam entre nós", uma premonição de que seus seguidores nunca possuiriam capacidade de se conscientizarem a favor de quem sofre a ponto de não compartilharem material e objetivamente o problema do outro? 

- Onde está a compaixão, o amor, o sentimento de sofrer com os que sofrem, chorar com os que choram, consolar os que precisam de consolo? 

- Cadê essa retórica farisaica que aos domingos troca abraços e choros entre pares mas na segunda exige de uma criança a concepção simplesmente para ter o sentimento de dever cumprido diante de seu Deus em defesa de um moralismo descabido, insuficiente, nojento, desconectado da realidade do embate e da sistemática dos problemas cotidianos humanos?

- Até quando esse tipo de gente vai chamar o outro de "alma" e se esquecerá  que se trata de pessoas vestidas de corpo, que sangram, sentem fome, sede, frio, adoecem, choram?

15. Enfim, não há realmente como dimensionarmos até que ponto a fé cega e desprovida de razão chega e alimenta uma práxis sobremaneira distanciada do que é proposta na teoria, alienando pessoas das mazelas do mundo real, que é exigente, despende energia diária, trabalho, esforço, suor, caso na prática queira ser feita alguma coisa.

André Francisco   

quinta-feira, 30 de julho de 2020

Nuvem de Gafanhotos



1. "Nuvem de gafanhotos confirma os sinais do apocalipse joânico".

2. Uma proposição é uma oração declarativa que pode ser valorada como verdadeira ou falsa (nunca ao mesmo tempo) e divide-se em simples e composta.

3. No caso acima, evidencia-se uma simples, pois distinguem-se a partir do uso ou não de conectivos tais como: conjunção, disjunção inclusiva, disjunção exclusiva, condicional e bicondicional; e, ou- ou..., ou...-, se... então..., e "...se e somente se..." respectivamente.

4. Em tese, objetiva apresentar uma afirmação qualquer de verdade ou falsidade em determinada declaração, delimitando, no ínterim da busca do observador- que estará munido de duas simples principais metodologias lógicas a serem destacadas aqui, as quais extrapolam simplesmente a proposição- a observação  apenas a fim de guiar às próprias conexões e simbologias oferecidas estritamente pela significação dos termos.

5. O método dedutivo é a modalidade do raciocínio lógico que utiliza a dedução estrita para concluir determinadas premissas. Apresenta, normalmente, conclusões consideradas verdadeiras baseadas em princípios também reconhecidos da mesma forma (os maiores), relacionados diretamente a uma proposição (menor) para, a começar desse contato, propor a finalidade  teleológica.

6. Por outro lado, o método indutivo considera um número suficiente de casos particulares e, com base neles, conclui uma verdade geral. Baseia-se, a priori, na experiência empírica, sensível. Faz uso, de maneira complementar, de inferências Estatísticas e Matemáticas, obtendo uma enumeração de dados suficiente para permitir a passagem da afirmação particular para a mais ampla. Em outras palavras, finaliza o raciocínio na hipótese de que o comportamento de alguns seja provavelmente o resultado para muitos.

7. Normalmente, para se "validar" a proposição da primeira frase usa-se a dedução. É mais abrangente e não se dispõe ao trabalho de sistematizar muitos casos diversos a fim de se inferir conclusão destarte como pelo método indutivo. É um raciocínio, talvez, mais simples e rápido.

8. Deduzindo:

1) há textos sobre gafanhotos joânicos em época apocalíptica;
2) há gafanhotos aparecendo em lugares nunca visitados; logo
3) há verdade na predição joânica apocalíptica e a vivemos.

10. Induzindo:

1) há textos sobre gafanhotos em Gênesis, Escritos, Profetas, Evangelhos, Apocalipses, apócrifos, literaturas de povos diversos orientais, ocidentais, religiosos ou não;

2) há gafanhotos vindo de todas as partes desde sempre há milênios, sazonalmente, de diferentes formas, causando danos ou não danos variados; logo

3) não é verdade que casos de agora se relacionem absoluta e conclusivamente com a predição joânica apocalíptica.


11. Parte da maioria dos raciocínios lógicos voltados à afirmações de profecias e textos antigos são de caráter dedutivo conclusivos, a depender do cálculo determinadas taxas de variância, utilizando-se determinados conjuntos amostrais de população Estatística, sem qualquer critério técnico metodológico, no entanto, apenas alusões generalizantes de inferência sem respeitar determinados limites impostos pela própria definição do processo.

12. Diante disso, quando filtradas vis-à-vis à crítica básica de procedimentos  simples e exaustivamente trabalhados em outro tempo, não se sustentam de qualquer forma.

André Francisco


segunda-feira, 13 de abril de 2020

Culto online e o fracasso da Reforma Protestante


Lutero bipolar - primeiro defende os judeus, depois os amaldiçoa



1. Tradicionalmente- ainda que, quando analisados pormenores históricos políticos mais aprofundados, discorde-se, Martinho Lutero cravou as 95 teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg com a ideia de que as indulgências papais e outros dogmas da Igreja Católica Romana estavam equivocados ao serem comparados ao conteúdo das Sagradas Escrituras. 

2. As indulgências funcionavam como um pedágio para o fiel obter a graça redentora do Cristo. Um valor era dado à igreja, através de seus santos padres, para que nomes fossem aceitos no céu após a morte, como também pecados perdoados na terra. 

3. Lutero discordava disso e acreditava que todas as pessoas poderiam acessar diretamente às benesses divinas sem precisar depositar qualquer valor monetário nos cofres da Igreja. Na visão do reformador, havia um caminho desinstitucionalizado entre a humanidade e Deus, garantido na morte e ressurreição de Jesus 1500 anos antes. O papel da instituição religiosa era secundário, apenas sendo uma representação de comunhão e fraternidade entre os cristãos e não um meio necessário sem a qual ninguém poderia se chegar ao Salvador.

4. Logicamente a Igreja Católica discordou do posicionamento revolucionário do monge agostiniano rebelde e o excomungou. Apadrinhado pela nobreza Alemã e pela vontade política do Estado de se libertar da soberania institucional do clero da Itália, conseguiu dar início ao que ficou conhecido como Reforma Protestante e Igreja Luterana, epicentro do movimento que cisou a cristandade até os dias atuais em proporções jamais vistas. 

5. Mas qual a relação de Lutero com culto online?

6. A ideia da reforma luterana inicialmente foi a de romper por completo com a absurda dependência a qual a Igreja Romana, ao longo de milênios, criou teológica, litúrgica e culturalmente entre seus ritos e estrutura em relação a seus membros. As indulgências e disputas políticas dos estados soberanos incipientes foram simplesmente a "gota d'água" como se conhece em livros de história da igreja. Não havia liberdade para que uma pessoa comum fizesse qualquer esforço para se chegar espiritualmente a Deus sem passar pelos mecanismos da tradição romana.

7. Um cenário de institucionalização total da fé em torno dos dogmas e tradições e liturgias que proporcionavam o único modus de expressar a vivência cristã. Lutero discordava disso assim como outros antecessores na reforma: Wyclif, Hus, Tyndale, etc. 

8. (Caso queira se inteirar sobre a Reforma Protestante leia alguns livros de história da igreja).

9. Atualmente, as igrejas que representam a Reforma proposta nas 95 teses são tradicionalmente conhecidas como evangélicas. Diante do cenário mundial que se vive, na epidemia do coronavírus, diversos seguimentos resolveram usar a tecnologia a seu favor, criando o que se popularizou como "culto online" ou "live", em que as pessoas são convidadas a se conectarem em rede social (normalmente Facebook ou Instagram), para acompanharem alguma coisa que se parece como um devocional televisionado. 

10. A fim de se evitar aglomeração, normalmente o Pastor da Igreja, junto de poucas pessoas ou sozinho, inicia a liturgia com o mesmo rito já praticado em dias normais: hinos, leitura devocional da Bíblia, orações e pregação. Os telespectadores acompanham a apresentação e teoricamente se conectam a Deus de alguma forma intermediada pelo templo. A pergunta que se faz é: há necessidade dessa intermediação para se cultuar? A Reforma Protestante do passado não combatia necessária e diretamente essa conexão entre fiel, templo e sagrado? O que justifica o membro cristão, que participa todos os dias por anos de seus ritos do templo, conectar-se à distância com a centralização do espaço sagrado para se sentir alcançado pela graça?

11. Talvez o movimento protestante atual tenha se transmudado daquilo que havia sido inicialmente em sua propositura. A institucionalização do sagrado já não é apenas fetiche da Igreja Romana há mais de 500 anos. Grande parte das igrejas evangélicas também se adaptaram a essa manutenção do sagrado dentro de si, objetivando oferecer um produto/resultado da espiritualização de seus próprios mecanismos, inclusive a sua estrutura eclesiástica e a eucaristia (santa ceia).

12. Obviamente que existe a possibilidade de se usarem justificativas neotestamentárias ou Bíblicas para esse tipo de modernização, assim como, a meu ver, para qualquer coisa que seja possível imaginar em uma mente humana (não é o caso aqui discorrer sobre a alegorização textual da Bíblia maquiada em interpretação espiritual), mas partindo de um ideário comum, apresentado por uma visão tradicional e conservadora dos textos mais básicos da hermenêutica cristã e, a partir de uma visão teológica protestante geral, visualiza-se facilmente a reprodução daquilo que o próprio movimento já combateu; não simplesmente como um dos pontos de disputa interpretativa histórico, porém, seu principal. 

13. Diante disso, observando sempre de fora, é possível notar a diversidade de manifestações do movimento religioso a partir das necessidades contextuais e locais a que se subordinam. A adequação rotineira, combustível de sustentação de praticamente todas as formas de espiritualidade humana, às mudanças do cotidiano. 


André Francisco

quinta-feira, 19 de março de 2020

Do lugar dos deuses na pandemia (coronavírus)



1. Parafraseando anacronicamente Marx, a história da humanidade é uma história de luta pela sobrevivência. Nada mais lógica essa afirmação, obviamente porque se refere a seres vivos assim como tantos demais que conhecemos, por enquanto, na terra. E, pelo que se pode inferir, manter-se em vida faz parte do jogo a praticamente todo custo. 

2. Todo custo no sentido de que sempre apelamos para os mais diversos recursos disponíveis a fim de confrontarmos a ideia assustadora de que, um dia, inevitavelmente, deixaremos de existir. Talvez mais "assustadora" para alguns que não conseguiram (ou não quiseram) aceitar a prova natural de que a morte nada mais é do que o momento em que nossas consciências, corpos ou qualquer coisa do estado subjetivo do nosso ego voltará à condição anterior ao próprio nascimento. Ou seja, a da não existência. Tentando exemplificar, nutrindo-me com um pouco de existencialismo, poderia aprofundar a ideia e considerar o retorno não ao nascimento biológico em si, porém àquela condição que costumo chamar de última memória lúcida. Um exercício mental prático deixa bem ilustrada essa definição de maneira retórica: onde eu estava antes da última memória que tenho conscientemente de mim mesmo? Se a análise for feita honestamente e não se apelar para fotografias ou filmagens e logicamente para a realidade física externa de se estar em algum ponto naquele momento, possivelmente, a resposta será lugar nenhum. Nesse contexto, é importante comentar que tudo funcionava perfeitamente e dentro dos padrões naturais do universo independentemente de consciências humanas pontuais. Enfim- pois a ideia aqui não é discutir a filosofia da coisa existencial-, somos mais um ou menos um.

3. Voltando à questão dos recursos destaco a hipótese da vida após a morte e dos deuses. É extremamente confortável diante do cenário amedrontador da realidade biológica e novidade do pós-morte a suspeita de que viveremos para sempre. Tanto na religião quanto na ciência percebemos que muita força de trabalho é aplicada na tentativa de gerar a maior longevidade possível das pessoas humanas. A primeira apela para a abstrata mentalização do mundo metafísico e suas características a depender dos pormenores e diversidades doutrinárias e metodologicamente formadas ao redor do mundo. Simplificando, depende da maneira com a qual cada tradição religiosa lida com o tema. Varia local e estruturalmente de acordo com a ideia que se tem de seu estabelecimento e prática cúltica. Exemplo, o tema é tratado diferentemente entre um hindu e um judeu ortodoxo, ou Católico Romano e Aborígenes Australianos. O céu protestante faz sentido para os protestantes, mas para tribos indígenas isoladas a hipótese desse local se identifica melhor com a nascente de um rio que passa por perto, como os Pirarrãs. O Ragnarok Nórdico sensibilizou diversos povos por longos períodos de tempo, mas não convenceu suficientemente os cristãos conquistadores de suas terras. Pois bem, mesmo diante de algumas divergências pontuais a ideia é que sempre há similaridade no sentido final da explicação metafísica, a de que, para se ter algum sentido na vida humana, é necessário viver para sempre. 

4. Do outro lado, os deuses, talvez conectadamente com a primeira hipótese- excetuando-se aqui alguns seguimentos que não necessariamente acreditam na existência de seres governadores (budismo)-, são a abstração de especial destaque da história humana a qual é possível se conhecer documentalmente. Desde os primórdios da comunicação escrita ou rupestre, é notória a capacidade que temos em criar determinadas figuras com o objetivo de representar algum símbolo imagético superior. Esse objeto iconolátrico normalmente carrega o sentido de preenchimento de lacunas do conhecimento. Uma rápida observação das tradições religiosas mais antigas garante tal afirmação, pois sempre que qualquer coisa que superasse a expectativa ou nível observacional disponíveis à época em destaque, criando-se uma lacuna irreparável entre a explicação comum e o dado novo, fazia-se necessário atribuir à entidades divinas tais tamanhas façanhas e sempre a se especular o motivo coerentemente com alguma situação social ou de sentido adjungido a grupos humanos. O que se quer dizer é que a falta de conhecimento- seguindo a epistemologia moderna- para explicar acontecimentos novos, notoriamente os que fugiam da capacidade técnica e teórica desses povos, desaguavam na metodologia da cosmovisão mítico-religiosa.

5. Seguindo esse ideário mítico, político e religioso, as civilizações dispunham de respostas técnicas fundamentadas sempre na especulação metafísica abstrata com pouquíssimos lampejos de exceção. É fácil perceber essa referência, por exemplo, através de uma análise aprofundada de cosmogonias antigas como dos Sumérios, Fenícios, Egípcios, Orientais. Adiante ao quadro cronológico os Mesopotâmicos, Hebreus, Babilônicos, Persas, Gregos, Romanos, Nórdicos entre outros. 

6. Interessante de se observar é que normalmente esses textos não tratavam apenas de questões relacionadas ao pós-morte, mas minimizavam os efeitos de catástrofes e problemas de saúde generalizados. Textos do médio oriente e consequentemente dos hebreus- que beberam dessas fontes- classificavam em várias frentes os problemas relacionados com as enchentes esporádicas comuns à região alagada do entre rios. Desse tipo de alusão nasceram distintas narrativas de Dilúvios mundiais, sempre salientando apenas a área conhecida até então como porção habitada. O mito de Enuma Elish, a Epopeia de Gilgamesh e de Atrahasis, O Mito de Noé hebreu são destaques de narrativas camponesas dessas calamidades de fenômenos da natureza. As disputas entre Marduk e Tiamat para a criação do cosmos representavam na mitologia mesopotâmica a fundação das estruturas do universo e também o lado positivo e negativo de todas as coisas, inclusive doenças e curas. A narrativa hebreia da saída do povo do Egito sob a praga da enfermidade que devastou parte da população egípcia indica a atuação de YHWH diretamente na produção do mal necessário para o resultado vencedor de seu povo até então escravizado. Claro que redobra a importância de classificarmos esses dados apenas como mitológicos pois a responsabilidade de sua formação ficou, como se conhece, nas mãos de seguimentos religiosos elitizados e estruturalmente formados muito tempo depois do teórico período de historicidade em que não literalmente ocorreram. 

7. Há quem relacione  problemas graves de saúde e fome no continente africano com o mito da marca de Caim previsto na literatura hebreia do Bereshit (Gênesis), em que há uma maldição de YHWH sobre esse personagem a qual, nessa visão, habitou o continente após fugir e sequencialmente disseminou em seus descendentes a praga instaurada divinamente. 

8. Nesse cenário sucintamente supracitado, fatalmente se nota a perambulação da ideia abstrata do divino a lidar com situações reais e naturais do dia a dia do mundo antigo. Atualmente não é diferente. Segue-se a metodologia mítica para se atribuir a seres superiores toda a estrutura pragmática do jogo da vida; a maneira com que se maneja a imaginação depende do seguimento de fé e credo das comunidades ou individuais. Grande parte dos fieis cristãos, por exemplo, assimila o adestramento de que há um controle rigoroso de YHWH diante de qualquer caso factual que se possa existir. Seja para o bem da espécie ou para o mal, o soberano mantém essa característica dogmática de saber e controlar tudo e aposta nos resultados naturais de sua própria criação apenas atuando pontualmente quando quer com benesses e, lado a lado, eximindo-se da culpa dos males inevitáveis. Atua ao assumir tal posição emancipada, praticamente- em se tratando da teologia da crise moderna-, classificasse como o "totalmente outro" de Karl Barth. Nessa visão religiosa o ser supremo lidera os eventos de longe e de perto ao mesmo tempo, sempre na esteira de sua vontade ou bel prazer. O momento ativo da dinâmica de contato da deidade com humanos é objetiva no mundo real e completamente dependente da forma a que estes inatamente entendem em suas micro-realidades e interações. Ou seja, a conclusão óbvia que se chega é que só há possibilidade de perceber deus atuando quando atribuímos a nossa pequena parte de realidade as teorias que já temos em mente sobre Ele e que, corriqueiramente, recebemos por tradição através do meio de inserção, cultura, sociedade.  

9. Na pandemia, na doença, no tsunami, nas guerras, nos conflitos do dia a dia, na morte, na vida, no emprego, no desemprego, na tristeza, na alegria, no prazer, no desprazer, na bonança, na falta, na riqueza ou pobreza, enfim, na sobrevivência humana, no jogo de ações e reações internas e externas ao ego, a abstração da ajuda do alto surte efeito para cada mente que se apropria de seu conjunto de informações e carece diretamente desse "ópio" mental para se sentir melhor- no subjetivo- ou ver o melhor e pior- objetivamente. É oportuno separar em duas maneiras as lentes da capacidade interpretativa e observacional da realidade que dispomos, subjetiva e objetiva, para criarmos uma distinção importante na análise. Em referência direta à subjetividade, normalmente, o enquadramento do mito produz efeito de se sentir parte de um todo coerente, lógico, de proteção e paz interior. O todo custo da sobrevivência depende do bem estar do indivíduo em si mesmo, do equilíbrio emocional e afetivo diante das situações de infinitas problemáticas do existir. Os deuses se encaixam muito bem nesse diapasão. No outro lado, o da objetividade, o lugar dos supremos na mente do homem notador está mais voltado ao controle externo e decisão em última instância de casos as quais superam suas capacidades. Em melhores palavras, tudo que acontece ao redor deve ter um porquê e, na abstração, esse porquê não está à deriva do acaso, no entanto, no croqui do controle divino. Como se a realidade fosse um arquitetura previsível e programa não por si mesma e suas regras físicas, mas que depende a todo custo da manutenção de quem a produziu. 

10. Não há mais espaço.


11. Um breve conclusão. Sobreviver é instintivo e é aspiração de todas as espécies vivas catalogadas. Para que isso aconteça precisam se valer tanto de ferramentas físicas como de abstratas (essas mesmas). No segundo caso encaixam-se as mais evidenciadas na história no aspecto religioso, a ideia da vida eterna e da realidade dos deuses. A depender do seguimento cúltico e da doutrina produz-se determinada concepção do pós-morte como também da comunicação das entidades supremas. Normalmente se apela para esses dois vieses para satisfazer lacunas existenciais que surgem com descontroles naturais como catástrofes, pandemias e outros. Diante do momento em que se passa a situação anormal surgem novas teorias míticas ou são reforçadas as que já existem. Quando a anormalidade se finda essas mesmas interpretações são usadas para analisar o passado breve e tentar dar um sentido maior para todos os acontecimentos e, no caso humano, sempre centralizando e comunicando as informações, motivos, fatos e dados dos ocorridos com o sentido do próprio existir.

André Francisco

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Miqueias: da superioridade utópica de Jerusalém na fonte deuteronomista

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1. Jerusalém, principalmente após a divisão do reino em Israel e Judá, sempre teve um papel de protagonismo na redação deuteronomista da Bíblia Hebraica. Grande parte dos textos de clamor, sapienciais, de cânticos, litúrgicos, narrativos, oferecem respaldo a essa afirmação quando analisados de perto. 

2. A ênfase recai, sem dúvidas, no momentum de cativeiro Babilônico e pós- exílico moderno (583- 450 a.C). A sua destruição devida à invasão estrangeira e consequente deportação deixou na preleção dos profetas posteriores e sacerdotes redatores a confirmação da mensagem de libertação, restauração e reedificação. 

3. Podemos também situar nesse contexto o crescimento de correntes teológicas que defendiam a reafirmação do reinado da família davídica e consequentemente a criação da figura do Messias libertador posterior (fortalecida sobremaneira após a reconstrução de Neemias e cotejo com ideais Persas). 

4. Jerusalém e Sião, também por questões geográficas, por ter sido a sede do Estado Uno e berço da espiritualidade sacerdotal com o Templo, ganha um lugar de destaque na centralização política desejada pelos reformadores pós-exílio. No texto de Miqueias evidencia-se esse aspecto nas mensagens de clamor utópico por Jerusalém reformada em que, diferente da situação escravagista no estrangeiro, garantiria a justiça, paz social e igualdade entre os que temem a Javé. 

5. Fruto do esforço dos redatores, verifica-se semelhança com o Terceiro Isaías na Sião utópica e centralização de todas as nações, povos e governos alienígenas na adoração ao Único Javé no templo reformado. A superioridade teológica das fontes sacerdotais no momentum pós Babilônia reforçaram esse aspecto de Jerusalém em destaque e Samaria, antiga capital de Israel, entregue aos ídolos e destruída. 

6. Nas cronologias dos reis- documentos que sofreram revisão teológica dos deutoronomistas pós-exílicos na traditiva oficial- vê-se essa diferença "histórica" no paganismo de Samaria e santidade de Sião, oficializando pelo apelo interpretativo  a verdadeira localização da espiritualidade dos hebreus os quais tiveram contato com a reestruturação do estado em 500 a.C. O momento apelativo de Neemias 8 e o "achamento" do livro da lei (provavelmente o Livro de Deuteronômio e a leitura monoteísta/ persa da teologia sagrada) lido por Esdras em Jerusalém reconstruída pelos Persas destaca também a teórica consolidação das promessas anteriormente feitas sobre a supremacia e glória da antiga capital. 

André Francisco











Miqueias: das perícopes contraditórias





1. A Bíblia Hebraica é composta de diversos textos escritos em épocas diferentes. Muitas vezes reunidos sob uma autoridade autorial profética, sacerdotal ou de família real. O livro de Miqueias não é exceção. 

2. Percebe-se a reunião de diferentes perícopes sob a autoridade do nome do profeta antigo, mas que evidenciam linguagem e assunto heterogêneos no processo da pesquisa de datação, facilitando assim afirmações relacionadas a não autoria única de todo o conteúdo. Cada momento teológico abordado representa conjuntamente uma disputa social e política evidente. O crescimento do Império Assírio e a iminente invasão a Israel em 722 a.C, o cativeiro Babilônico e promessas da reestruturação utópica de Judá e Sião por volta de 583 a.C, como também possíveis observações rápidas de períodos após o poderio militar e imperialista Mesopotâmico. 

3. Também se destacam as mãos dos redatores deutoronomistas construindo o viés teológico da libertação, soberania e reconstrução de Judá diante das nações muito tempo depois dos acontecimentos marcantes da história hebreia do sexto século a.C, garantindo a eficiente ideologia do controle e manutenção de Javé a seu povo mesmo em situação de cativos de nações estrangeiras. Há de se destacar que a maior parte da história do livro retrata momentos de conflitos entre Israel e Assíria, política militarizada de Ezequias e a crítica dos camponeses diante da exploração tributária da corte para a manutenção das investidas bélicas. 

4. A vontade de Javé e sua palavra mostra-se evidentemente a depender do ponto de vista e da função social do autor. No caso relatado nos textos da narrativa de 722 a.C, a defesa é que a solidariedade e bondade da elite do Estado ampare o pobre do campo e não o explore com cobranças que visem sustentar a política nacional de defesa. Em referência aos profetas do palácio, a palavra de Javé se traduz na defesa das intenções do Rei em defender a nação a partir da construção de muros e investimento pesado na área militar. Essa diversificação de ideias na boca dos profetas, a depender da classe social e visão política, torna-se evidente nessa disputa de intenções divinas para a afirmação ou não do conteúdo sagrado da revelação enquanto orientação espiritual.

5. Miqueias, o profeta, em sua breve participação real do livro que possui seu nome, defende a melhor repartição das arrecadações dos tributos e desincentiva a majoração das cargas as quais refletem diretamente na qualidade de vida do campo. Pelo contrário, os sacerdotes e a classe de videntes palacianos aprovam tais medidas e traduzem a política de Ezequias como sendo a melhor até então vista em Israel. Essa sobrevalorização é mostrada na narração de sua "biografia teológica" em grande parte do Livro do Primeiro Isaías e também em Reis, tratando-o como um dos melhores reis de Israel e mais fiéis as palavras de Javé.

6. Aqui destaca-se esse fator social e político importante na interpretação e observação de dados históricos relatados em diversas partes da Bíblia Hebraica os quais se mostram altamente importantes a serem considerados em uma exegese técnica, mesmo que em seu próprio conteúdo fique explicitada contradição óbvia entre um viés e outro. 

André Francisco









quarta-feira, 13 de novembro de 2019

A história de Israel no debate atual


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This article surveys some perspectives in the current research of the “History of Israel”, the challenges that this poses, and proposes some trajectories for those researching this subject. The scholarly consensus that existed up until the middle seventies of the twentieth century was shattered. The rationalistic paraphrase of the biblical text that constituted the core of the handbooks of the “History of Israel” is no longer acceptable to most scholars. An increasing number of scholars question the use of the biblical text as a source for the “History of Israel”. The implementation of modern literary criticism on the biblical text requires a moving away from issues of historicity, and this allows the “biblical” stories to be evaluated primarily from a literary perspective. The writing of a “History of Israel” using only the archaeological context and non-biblical writings is a controversial undertaking, however, an increasing number of scholars are attempting to do this.  It appears a revisionist “History of Syria/Palestine” will compete against the traditional “History of Israel” as scholars from both sides continue their research.

Até meados da década de 70 do século XX, havia um razoável consenso na História de Israel. Entre outras coisas, o consenso dizia que a Bíblia Hebraica era guia confiável para a reconstrução da história do antigo Israel. Dos Patriarcas a Esdras, tudo era histórico. Se algum dado arqueológico não combinava com o texto bíblico, arranjava-se uma interpretação diferente que o acomodasse ao testemunho dos textos, como no caso da destruição das (inexistentes) muralhas de Jericó pelo grupo de Josué[1].
Exemplos?
Os patriarcas eram personagens históricos, o que podia ser comprovado pelos textos mesopotâmicos de Nuzi, do século XIV a.C., em seus muitos paralelos, de estruturas socioeconômicas a tradições legais, com Gn 12-35. E a migração dos amoritas, que ocuparam a Mesopotâmia e a Palestina no final do terceiro milênio a.C., criava as condições ideais para a entrada dos patriarcas na região da Palestina e explicava seus nomes, sua língua e sua religião.
José era personagem historicamente possível, pois havia grande quantidade de evidências egípcias que testemunhava os costumes contados em Gn 37-50. Semitas poderiam ter chegado a altos postos de governo no Egito, incluindo o de grão-vizir, especialmente durante o governo dos invasores asiáticos hicsos.
A escravidão dos hebreus no Egito e o êxodo não podiam ser questionados, pois textos egípcios testemunham que Ramsés II utilizou hapirus (= hebreus) na construção de fortalezas no delta do Nilo em regime de trabalho forçado. A Estela de Merneptah, faraó sucessor de Ramsés II, comprova a existência de israelitas na terra de Canaã na segunda metade do século XIII a.C., o que nos permitia fixar a data do êxodo aí por volta de 1250 a.C.
A conquista da Palestina pelas 12 tribos israelitas sob o comando de Josué, como narrada no livro que leva o seu nome, contava com testemunhos arqueológicos respeitáveis, como a destruição de importantes cidades cananeias na segunda metade do século XIII a.C., embora muitos autores preferissem explicar a entrada na terra de Canaã de outro modo, como pacífica e progressiva infiltração de seminômades pastores a partir da Transjordânia.
A construção e a consolidação do poderoso império davídico-salomônico eram consideradas como pontos fixos e imutáveis na historiografia israelita, constituindo marco seguro para qualquer manual de História de Israel ou de Introdução à Bíblia quanto às datas dos acontecimentos e às realizações da sociedade israelita.
Os reinos separados de Israel e Judá, após a morte de Salomão, eram bem testemunhados pelos textos assírios e babilônicos, e até pela Estela de Mesha, rei do vizinho país de Moab, sendo tudo, por sua vez, muito bem detalhado nos livros dos Reis, parte da confiável Obra Histórica Deuteronomista.
O exílio babilônico e a volta e reconstrução de Jerusalém durante a época persa, marcando o nascimento do judaísmo baseado no Templo e na Lei que passa a ser lida sistematicamente nas sinagogas, constituíam matéria real e sem maiores problemas, graças à confiabilidade dos textos bíblicos que detalhavam os acontecimentos desta época.
O melhor livro para detalhada exposição e defesa deste consenso é o de John Bright, História de Israel. São Paulo: Paulus, 1978, traduzido da segunda edição inglesa de 1972. Bright pertence à escola americana de historiografia de W. F. Albright e esta sua ‘História de Israel’ foi o manual mais utilizado por nós nos anos 70 e 80 do século passado.
John Bright lançou uma 3a edição de sua História de Israel em 1981. Poucas mudanças foram feitas. O autor atualizou o livro quanto a algumas descobertas arqueológicas e mostrou-se mais prudente nas afirmações sobre a historicidade de certos acontecimentos e personagens bíblicos. Mas manteve, basicamente, as posições da 2a edição. Uma 4a edição do livro foi lançada, após a sua morte em 1995, com uma Introdução e um Apêndice de William P. Brown, no ano 2000, pela Westminster John Knox Press. A tradução brasileira desta 4a edição foi publicada pela Paulus no final de 2003, como a 7a edição, revista e ampliada a partir da 4a edição original. Bright foi, até a sua morte, Professor de Hebraico e de Interpretação do Antigo Testamento no Union Theological Seminary, Richmond, Virginia, USA.
É preciso lembrar, porém, que a historiografia alemã, desde W. de Wette, em 1806-7, passando por Julius Wellhausen, em 1894, até Martin Noth, em 1950, não participava integralmente deste consenso, negando, por exemplo, a historicidade dos patriarcas.
Mas, a ‘História de Israel’ está mudando. O consenso foi rompido. A paráfrase racionalista do texto bíblico que constituía a base dos manuais de ‘História de Israel’ não é mais aceita. A sequência patriarcas, José do Egito, escravidão, êxodo, conquista da terra, confederação tribal, império davídico-salomônico, divisão entre norte e sul, exílio e volta para a terra está despedaçada.
O uso dos textos bíblicos como fonte para a ‘História de Israel’ é questionado por muitos. A arqueologia ampliou suas perspectivas e falar de ‘arqueologia bíblica’ hoje é proibido: existe uma ‘arqueologia da Palestina’, ou uma ‘arqueologia da Síria/Palestina’ ou mesmo uma ‘arqueologia do Levante’.
O uso de métodos literários sofisticados para explicar os textos bíblicos, afasta-nos cada vez mais do gênero histórico, e as ‘estórias bíblicas’ são abordadas com outros olhares. A ‘tradição’ herdada dos antepassados e transmitida oralmente até à época da escrita dos textos frequentemente não consegue provar sua existência.
A construção de uma ‘História de Israel’ feita somente a partir da arqueologia e dos testemunhos escritos extrabíblicos é uma proposta cada vez mais tentadora. Uma ‘História de Israel’, que dispense o pressuposto teológico de Israel como ‘povo escolhido’ ou ‘povo de Deus’ que sempre a sustentou. Uma ‘História de Israel e dos Povos Vizinhos’, melhor, uma ‘História da Síria/Palestina’ ou uma ‘História do Levante’ parece ser o programa para os próximos anos.
E há pesquisadores de renome na área, como Rolf Rendtorff, exegeta alemão, professor da Universidade de Heidelberg, falecido em 2014, que já em 1993 afirmava em artigo na revista Biblical Interpretation 1, p. 34-53, que os problemas da interpretação do Pentateuco estão intimamente ligados aos problemas mais amplos da reconstrução da história de Israel e da história de sua religião.
Este artigo quer traçar um panorama destas mudanças pelas quais vem passando a ‘História de Israel’ nas últimas décadas, apontar as dificuldades que a crise vem criando e propor algumas pistas de leitura para os interessados no assunto.

1. Patriarcas? Que Patriarcas?
Em 1967, o norte-americano Thomas L. Thompson começou sua tese de doutorado na Universidade de Tübingen, na Alemanha. O tema: as narrativas patriarcais. Sua ideia fundamental: se algumas das narrativas sobre os patriarcas hebreus estavam se referindo historicamente ao segundo milênio a.C., como quase todos os arqueólogos e historiadores acreditavam naquela época, então Thompson poderia distinguir nelas as mais antigas histórias bíblicas da tradição posterior mais ampliada[2].
Thomas L. Thompson
Quando Thompson começou seu trabalho, ele estava tão convencido da historicidade das narrativas sobre os patriarcas no Gênesis, que aceitou, sem questionar, os paralelos feitos entre os costumes patriarcais e os contratos familiares encontrados na cidade de Nuzi, no norte da Mesopotâmia, e datados da época do Bronze Recente (ca. 1500-1200 a.C.)[3].
Um bom exemplo desse paralelismo pode ser lido no comentário de SPEISER, E. A. Genesis. Garden City, New York: Doubleday, 1964, no qual o autor discute cerca de 20 coincidências entre os costumes patriarcais e os costumes de Nuzi, como os casos da esposa-irmã Sara (Gn 12,10-20 e paralelos), a adoção de um estrangeiro, Eliezer, como herdeiro (Gn 15,2), a mãe de aluguel como Agar (Gn 16,1-6).  Estes e outros exemplos podem ser mais facilmente vistos em VOGELS, W. Abraão e sua Lenda: Gênesis 12,1-25,11. São Paulo: Loyola, 2000, p. 38-45.
Dois anos mais tarde, porém, em 1969, Thompson percebeu que os costumes familiares de Nuzi e as leis sobre propriedades não eram exclusivos nem de Nuzi, nem do segundo milênio, mas, mais provavelmente, refletiam práticas típicas do primeiro milênio a.C. Isto quebrava o paralelismo feito pelos autores entre Nuzi e o mundo patriarcal e tirava a garantia de que os costumes patriarcais refletiam práticas do segundo milênio.
Além do mais, examinando a hipótese amorita, segundo a qual teria havido grande migração de nômades vindos das fronteiras do deserto siro-arábico para a Mesopotâmia e para a Síria-Palestina no final do terceiro milênio, Thompson percebeu que não havia prova alguma para tal pressuposto, pois o que se descobriu nos últimos anos é que os amoritas são sedentários do norte da Mesopotâmia, vivendo da agricultura e da criação de gado. Isto é testemunhado pelas centenas de povoados espalhados do Eufrates até os vales dos rios Khabur e Balikh e datados pelos arqueólogos como existentes desde o Calcolítico. O crescimento populacional dos amoritas deve ter provocado a ampliação de seus territórios e a ocupação de várias cidades da região. Além do que, muitas das mudanças ocorridas em todo o Antigo Oriente Médio que antes eram atribuídas a invasões mal documentadas de povos, podem ser explicadas, hoje, mais cientificamente, pelas mudanças climáticas na região, sujeita a períodos de secas prolongadas e devastadoras.
Thompson passou, então, a defender que as narrativas patriarcais estavam refletindo muito mais o primeiro do que o segundo milênio, e a datação tradicional dos patriarcas e sua historicidade caíram por terra.
O resultado foi academicamente desastroso. Thompson, que terminou a pesquisa em 1971, não pôde defender sua tese na Europa nem publicar seu livro nos Estados Unidos. O livro só foi publicado em 1974 e Thompson conseguiu seu PhD na Temple University, Philadelphia, Estados Unidos, em 1976[4].
John Van Seters, de quem falaremos mais detalhadamente no próximo item a propósito do Javista, pesquisando a historicidade dos patriarcas, independente de Thomas L. Thompson, chegou a conclusões semelhantes, não atribuindo qualquer valor histórico às estórias sobre Abraão.
Em 1987 Thomas L. Thompson começou a trabalhar a questão das origens de Israel, retomando a argumentação publicada em um artigo de 1978, sob o título de “O Background dos Patriarcas”, no Journal for the Study of the Old Testament, da editora Sheffield, Reino Unido. Neste artigo, Thompson localizava as origens de um Israel histórico na região montanhosa ao norte de Jerusalém durante o século IX a.C. Isto implicava a exclusão de qualquer unidade política de Israel que abrangesse toda a Palestina, ou seja, não podia ter existido uma ‘Monarquia Unida’ sob Saul, Davi e Salomão em Jerusalém, no século X a.C.
O artigo de T. L. Thompson foi relançado em livro: The Background of the Patriarchs: A Reply to William Dever and Malcolm Clark, em ROGERSON, J. W. The Pentateuch. A Sheffield Reader. Sheffield: Sheffield Academic Press, 1996, p. 33-74.
O estudo completo resultou no livro Early History of the Israelite People from the Written and Archaeological Sources [Antiga História do Povo Israelita a partir de Fontes Escritas e Arqueológicas], Leiden: Brill, 1992 [2. ed.: 1994]. Diz Thompson que a reação a este livro foi pior do que à tese sobre os patriarcas, levando ao afastamento do autor da Marquette University, nos Estados Unidos, onde trabalhava.
Mas, em 1993, Thompson foi convidado para trabalhar no Departamento de Estudos Bíblicos da Universidade de Copenhague, onde até hoje se encontra, e onde encontrou um grupo com ideias avançadas sobre a ‘História de Israel’, os hoje chamados ‘minimalistas’.
Um relato dos conflitos e debates que envolveram a escrita e publicação da tese de Thompson foi feito por ele no artigo On the Problem of Critical Scholarship: A Memoire, publicado em abril de 2011 pela revista online The Bible and Interpretation.

2. Van Seters reinventa o Javista
Ainda em 1964, o canadense John Van Seters aceita o desafio de um seu professor e começa a revisão da ‘Hipótese Documentária’ do Pentateuco, examinando as tradições sobre Abraão.
A ‘Hipótese Documentária’ afirmava, desde o século XIX, que o Pentateuco era composto pelas fontes JEDP – Javista, Eloísta, Deuteronômio e Sacerdotal, elaboradas desde o século X a.C. na corte davídico-salomônica até o século V a.C., com Esdras, na Jerusalém pós-exílica.
F. V. Winnet, professor de Van Seters, em conferência feita em 1964, levantou uma série de dúvidas sobre os fundamentos da Hipótese Documentária. Winnet não aceitava a fonte E como um documento independente. Quando muito, admitia o pesquisador, ela poderia ser uma revisão de mais antiga tradição patriarcal e não poderia ser encontrada no Êxodo e Números. Isto porque o desenvolvimento literário do Gênesis teria ocorrido de modo independente de Êxodo e Números até o estágio final da composição do Pentateuco, quando então foram organizados e combinados pelo Sacerdotal (P). Assim, duas diferentes fontes deveriam ser vistas dentro do material J do Gênesis: uma mais antiga e outra da época do exílio. Com um detalhe: estas fontes não seriam documentos independentes, mas complementos de outras mais antigas. O mesmo deveria ser dito do P.
Embora a proposta de Winnet não tenha causado repercussão, Van Seters, examinando as tradições sobre Abraão, como dissemos, percebeu que episódios paralelos – como a história de Sara “irmã” de Abraão em Gn 12,10-20;20,1-18;26,1-11 – não são documentos independentes agrupados por redatores, mas sua relação é de complementação: Gn 12,1-20 corresponde ao J mais antigo de Winnet, Gn 20, 1-18 ao complemento E e Gn 26,1-11 ao J mais recente da proposta do professor.
Van Seters concluiu também que o material atribuído ao J mais antigo era muito pequeno, que o E consistia de uma única estória e que todo o material não-P pertencia ao javista mais recente.
Percebendo igualmente a forte afinidade do J com o Dêutero-Isaías, e também que a forma da promessa da terra no J era um desenvolvimento posterior daquela encontrada no Deuteronômio e na tradição deuteronomista, Van Seters concluiu que o J deveria ser visto como um autor pós-D, e que a ‘Hipótese Documentária’ deveria ser totalmente revista. Van Seters publicou sua pesquisa em 1975.
Estas conclusões podem ser lidas em VAN SETERS, J. Abraham in History and Tradition. New Haven: Yale University Press, 1975. E também em VAN SETERS, J. The Pentateuch: A Social-Science Commentary. Sheffield: Sheffield Academic Press, 1999, p. 59-60.
Em 1976 e em 1977 apareceram os livros de Hans Heinrich Schmid (1937-2014) e de Rolf Rendtorff (1925-2014) sobre o mesmo assunto. A crise do Pentateuco explodiu, então, em plena luz do dia e ninguém mais podia escapar da constatação de que a teoria clássica das fontes do Pentateuco, pelo menos em sua forma mais rígida, era insustentável.
H. H. Schmid, em 1976, contestou a tese de G. Von Rad de um ‘Iluminismo Salomônico’, do qual não se percebia nenhum sinal, como o ambiente no qual o javista teria nascido. Examinando uma série de textos amplamente aceitos como javistas, Schmid procurou mostrar que o J dependia fortemente da tradição profética e estava muito próximo da escola deuteronômica. A conclusão a que se chegou foi de que o Pentateuco era o produto do movimento profético, assim como o era o livro do Deuteronômio, e de que o J deveria ser visto em estreita associação com a escola deuteronômica nos últimos anos da monarquia ou na época do exílio.
Embora não tenha discutido a datação do J em relação ao D, seu discípulo Martin Rose, em 1981, chegou à conclusão de que o Deuteronômio e a Obra Histórica Deuteronomista eram anteriores ao javista.
Rolf Rendtorff, por sua vez, em 1977, retomando a ideia de M. Noth da formação do Pentateuco a partir de temas independentes, chega à conclusão de que tal independência não deve ser limitada ao período pré-literário, mas o alcança. Rendtorff não vê nenhuma conexão original entre Gênesis e Êxodo-Números, mas sim uma posterior costura deuteronomista ligando estas tradições. Donde se conclui que a ideia de fontes, tal como a J, deve ser abandonada, e que o desenvolvimento dos temas é que deve ser enfocado. Ele defende que cada unidade maior teve seu próprio processo de redação antes de ser colocada em contato com outras unidades. Seu aluno Ehard Blum, mais tarde, confirma as intuições de seu mestre estudando as tradições patriarcais de Gn 12-50.
Os estudos destes pesquisadores resultaram nas seguintes obras: SCHMID, H. H. Der sogenannte Jahwist. Zürich: Theologischer Verlag, 1976; ROSE, M. Deuteronomist und Jahwist: Untersuchungen zu den Berührungspunkten beider Literaturwerke. Zürich: Theologischer Verlag, 1981; RENDTORFF, R. Das überlieferungsgeschichtliche Problem des Pentateuch. Berlin: Walter de Gruyter, 1977; BLUM, E. Die Komposition der Vätergeschichte. Neukirchen-Vluyn: Neukirchener Verlag, 1984; Studien zur Komposition des Pentateuch. Berlin: Walter de Gruyter, 1990.
Uma exposição do pensamento destes autores pode ser vista, em português,  em DE PURY, A. (org.) O Pentateuco em questão:  As origens e a composição dos cinco primeiros livros da Bíblia à luz das pesquisas recentes2. ed. Petrópolis: Vozes, 2002, p. 63-70.
Van Seters estendeu seu estudo sobre o J a todo o Tetrateuco e defendeu, em livros publicados em 1992 e 1994, que o Javista compõe uma obra unificada que vai da criação do mundo até a morte de Moisés. O J faz o trabalho de um historiador – semelhante ao trabalho do historiador grego Heródoto – no qual ele se baseia em fontes orais e escritas, dando-lhe, porém um significado teológico próprio.
O objetivo da obra do J é o de corrigir o nacionalismo e o ritualismo da Obra Histórica Deuteronomista, da qual ela é uma espécie de introdução. Por isso, o Javista é posterior ao Deuteronômio e à Obra Histórica Deuteronomista (Deuteronômio, Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel e 1 e 2 Reis), sendo contemporâneo do Dêutero-Isaías e tendo afinidades com Jeremias e com Ezequiel. Mas é anterior ao Sacerdotal (P), que, por sua vez, não é uma obra independente, mas uma série de suplementos pós-exílicos ao D+J. O Eloísta (E) não se sustenta como documento independente e desaparece.
Van Seters conclui: “Deste modo, eu procuro resolver o problema existente entre os argumentos de Noth a favor de um Tetrateuco separado do D/OHDtr e a insistência de Von Rad em um Hexateuco, com Josué como o objetivo das promessas patriarcais. Já que o J era posterior ao D/OHDtr, ele ligou as duas grandes obras e acrescentou sua própria conclusão final ao Hexateuco através do segundo discurso de Josué em Js 24″ [5].
Só para entendermos por onde pode caminhar a discussão atual, cito aqui a proposta do arqueólogo Israel Finkelstein e do historiador Neil Asher Silberman, no livro The Bible Unearthed. Archaeology’s New Vision of Ancient Israel and the Origin of Its Sacred Texts.New York: The Free Press, 2001, sustentando que a arqueologia hoje dá suporte à hipótese de que tanto o Pentateuco quanto a Obra Histórica Deuteronomista foram escritos no século sétimo a.C.
Os autores defendem que boa parte do Pentateuco é uma criação da monarquia da época de Josias, elaborada para defender a ideologia e as necessidades do reino de Judá. E que a Obra Histórica Deuteronomista foi igualmente compilada, em sua maior parte, no tempo do rei Josias, para fornecer suporte ideológico para sua reforma política e religiosa.
E a crise do Pentateuco continua…
GERTZ, J. C. ; SCHMID, K. ; WITTE, M. (eds.) Abschied vom Jahwisten: Die Komposition des Hexateuch in der jüngsten Diskussion. Berlin: Walter de Gruyter, 2002, xii + 345 p.: esta obra mostra como a crise do Pentateuco continua e como um possível consenso parece ainda distante. Contribuem, neste volume escrito em alemão e inglês, Jean Louis Ska, Albert de Pury, Joseph Blenkinsopp, Jan Christian Gertz, Konrad Schmid, Erhard Blum, Hans-Christoph Schmitt, Thomas Dozeman, Uwe Becker, Markus Witte, Graeme Auld, William Johnstone, Ernst Axel Knauf, Thomas Römer, Reinhard Gregor Kratz… Só gente do ramo, proveniente da Europa, Estados Unidos e Israel! E, como observa Robert Gnuse, em resenha do livro na CBQ 65/4, de outubro de 2003, p. 656, os autores concordam em rejeitar a fonte javista e sugerem que a coerência das narrativas do Pentateuco somente foi alcançada no pós-exílio com o D e o P. Para além disso, ninguém concorda com ninguém… Cada um constrói seu próprio paradigma, cada um mais sugestivo do que o outro. E comenta Gnuse que os ensaios tipificam a natureza variada e caótica da pesquisa do Pentateuco, no contexto do abandono da teoria das quatro fontes.

[1]. Estou me inspirando no artigo de RENDSBURG, G. A. Down with History, Up with Reading: The Current State of Biblical Studies, em At the Cutting Edge of Jewish Studies,  no qual o autor lamenta e critica, em conferência pronunciada no Departamento de Estudos Judaicos da McGill University, Canadá, em maio de 1999, a ruptura do consenso que passo a descrever.
[2]. Cf. THOMPSON, T. L. The Mythic Past: Biblical Archaeology and the Myth of Israel. New York: Basic Books, 1999, p. XI.
[3]. Em Nuzi, habitada principalmente por hurritas, foram encontradas cerca de 3.500 tabuinhas cuneiformes, que cobrem a vida da comunidade e de cidades vizinhas ao longo de seis gerações. Especialmente significantes são as informações administrativas, sociais, econômicas e as descrições das práticas e estruturas jurídicas. É um material que ilustra brilhantemente a vida diária de uma comunidade da metade do segundo milênio a.C. Cf. FREEDMAN, D. N. (ed.) The Anchor Bible Dictionary on CD-ROM. New York: Doubleday & Logos Library System, [1992] 1997, verbete Nuzi.
[4]. O livro de Thomas L. Thompson: The Historicity of the Patriarchal Narratives: The Quest for the Historical Abraham. Berlin: Walter de Gruyter, 1974 e Harrisburg: Trinity Press International, 2002. Leia mais sobre isto em “On the Problem of Critical Scholarship: A Memoire”, artigo de Thomas L. Thompson publicado na revista online The Bible and Interpretation em abril de 2011.

https://airtonjo.com/site1/historia-de-israel.htm

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